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O Diabo Veste Prada 2 chega 20 anos depois e Streep ainda chuta a porta

David Frankel volta pra cadeira, Aline Brosh McKenna divide o roteiro com Wendy Finerman, e a Runway agora luta pra existir num mundo de creators. Streep, Hathaway e Blunt não disfarçam que cresceram, e essa é a melhor parte.

O Diabo Veste Prada 2 chega 20 anos depois e Streep ainda chuta a porta
— O VEREDITO

Streep e Hathaway elevam um roteiro que tropeça nas próprias referências

PulaPra fãsValeImperdível
78/100
NostálgicoAtuaçãoVale o ingresso
Pra quem ama o original e topa uma sequência mais melancólica que ácida

Vinte anos depois do meme cultural que virou "Cerulean blue", o cinema descobriu que o Runway de Miranda Priestly não tinha como sobreviver. A indústria editorial morreu. O TikTok herdou a influência. E o filme sabe disso, é exatamente daí que ele tira a força.

A continuação precisa responder a uma pergunta difícil: como continuar um clássico cult que virou meme cultural sem cair na própria armadilha do fanservice? David Frankel, diretor de volta à cadeira, opta por uma abordagem inteligente, atualizar o conflito em vez de repeti-lo. A indústria editorial morreu, e o "Runway" de Miranda Priestly luta pra existir num mundo de TikTok e creators.

Streep continua imperdível. Anne Hathaway encontra dignidade num papel que poderia ser apenas nostalgia. Emily Blunt está afiada. O roteiro tropeça em algumas referências forçadas, mas quando o filme respira, é puro cinema.

A Runway é Streep, e Streep é o filme

Miranda Priestly não voltou pra reclamar. Voltou pra entender. Há um momento, não vou estragar, em que ela está sozinha numa sala de pranchetas vazia, e Streep faz com o olhar o que outros atores precisariam de três páginas de monólogo. É a melhor atuação dela em uma década.

Hathaway entrega uma Andy mais velha, mais cínica, ainda lutando contra a mesma pergunta: vale a pena vender a alma pra estar na mesa? A diferença é que agora a mesa quebrou.

Blunt rouba todas as cenas em que aparece, e devia ter mais. Quando o filme deixa Emily soltar uma frase, o público lembra o que perdeu sem ela na franquia.

Onde o roteiro tropeça

A primeira meia-hora é nervosa. Há tentativa demais de piscar pro fã do original, "florals for spring", references diretas, gags que servem mais ao trailer do que ao filme. McKenna sabe escrever esses personagens de olhos fechados, mas alguém na produção parece ter exigido que cada cena tivesse um momento Twitter.

Quando a poeira assenta, uns 40 minutos dentro, o filme encontra o tom. A questão central, sobre relevância numa era em que toda criadora de 19 anos no TikTok tem mais alcance que a Vogue, é tratada com a malícia que o original tinha. Não é Aaron Sorkin denso, mas é melhor que a maioria das sequências de Hollywood.

A direção, leve mas funcional

Frankel não está aqui pra reinventar a linguagem. Está aqui pra entregar o produto certo. E entrega. A fotografia abandona o azul-cerúleo do original (jura que escapava com facilidade desse easter egg) por uma paleta mais quente, mais melancólica, Nova York não é mais a vitrine, é a casa de quem ficou.

A trilha (de Theodore Shapiro de novo) sabe quando pegar emprestado o tema do original e quando deixar. Funciona.

Quem deve ver, quem deve pular

Se você ama o original e topa que a sequência seja mais nostalgia melancólica do que comédia ácida, vai sair feliz. Se está esperando o Diabo Veste Prada original com 20 anos de pó, vai se frustrar. O filme é honesto sobre o que aconteceu nessas duas décadas, e isso é raro o suficiente pra valer o ingresso.

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L

Luiz Carvalho

Time editorial do Pipocou.

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