Sandra Hüller transformou o terceiro dia de Cannes 2026 num teste de resistência pros aplausos. O Grand Théâtre Lumière segurou seis minutos firmes ao fim de Fatherland (título ainda sem tradução oficial para o Brasil), o retorno de Pawel Pawlikowski à competição, e a alemã saiu da sessão carimbada como nome forte da próxima temporada de prêmios.
Pawlikowski faz drama enxuto sobre culpa pós-guerra
O filme acompanha Thomas Mann, vencedor do Nobel de Literatura, no retorno à Alemanha em 1949, depois de anos de exílio nos Estados Unidos durante o regime nazista. A história gira em torno da relação tensa entre o escritor e a filha Erika, papel de Hüller. Os dois cruzam uma Alemanha dividida e devastada pela guerra num road movie de luto contido que dura apenas 82 minutos, o título mais curto da competição neste ano.
Pawlikowski conhece esse terreno. Ida (2013) e Cold War (2018) já tinham mostrado o talento do polonês pra guardar a violência fora de quadro e deixar o silêncio fazer o trabalho. Em Fatherland a fórmula volta refinada, em preto e branco, com enquadramentos quadrados e cortes que não terminam onde a gente espera. A imprensa internacional saiu impressionada. A Deadline cravou "Pawlikowski no pico" e falou em "aula de disciplina artística". O ranking de jurados do Screen Daily trouxe Fatherland na liderança nos primeiros dias da edição.
Sandra Hüller já está no jogo do Oscar
A composição de Erika Mann é o tipo de papel que costuma render indicação. Hüller alterna ironia, raiva e ternura na mesma cena, e segura sozinha trechos inteiros sem diálogo. A atriz já foi indicada ao Oscar de Melhor Atriz por Anatomia de uma Queda em 2024, e Zona de Interesse no mesmo ano colocou ela no centro da conversa por dois filmes ao mesmo tempo. Aqui ela volta a trabalhar com material que combina rigor europeu e densidade emocional, equação que costuma agradar Academia.
Depois da exibição, Pawlikowski brincou com a plateia: "Espero que metade de vocês esteja sendo sincera." E completou: "Pela primeira vez, gostei de assistir a um filme meu."
Mubi já garantiu o filme em vários territórios
A Mubi tinha Fatherland no portfólio antes da estreia em Cannes, junto com Minotaur de Andrey Zvyagintsev na competição e Teenage Sex And Death At Camp Miasma de Jane Schoenbrun em Un Certain Regard. O streaming arthouse vem comprando agressivamente nesta edição e construiu uma das melhores listas do mercado, posicionando o filme como cabeça de chave da campanha de Oscar 2027.
Pra o público brasileiro, ainda não há data confirmada de estreia. A trajetória recente do streaming (que distribuiu Anatomia de uma Queda e Zona de Interesse por aqui) sugere que o filme deve aparecer no catálogo da Mubi BR em algum ponto do segundo semestre de 2026, mas o anúncio oficial não saiu.
O ano tinha começado com sinais mistos. La Vénus électrique, abertura da edição, recebeu resposta crítica morna. Parallel Tales do Asghar Farhadi dividiu opiniões no Screen jury grid. Fatherland virou o primeiro grande consenso da competição, e abriu a corrida pela Palma de Ouro mais clara do que se imaginava. Com Almodóvar ainda por estrear Amarga Navidad em 19 de maio e Kore-eda chegando com Sheep in the Box, a próxima semana promete cair na cabeça da Mubi e da Neon.
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