Cinco anos depois de uma primeira tentativa que parecia um filme feito por gente que tinha medo do próprio jogo, Mortal Kombat II chega como a sequência que a franquia precisava: assumida, gore, autoconsciente e, principalmente, divertida. Simon McQuoid volta para a direção e ganha uma certeza que faltava antes: este é um filme sobre torneio, e finalmente o torneio acontece. Karl Urban entra como Johnny Cage e amarra o elenco em volta de um centro carismático que o original não tinha.
Vale o ingresso. Não pela história (que continua sendo um pretexto fino entre lutas), mas pela coisa rara de um filme de videogame que entrega o que o videogame promete. Sangue, crânios cuspidos, fatalities sem desculpa, e um humor que entende que dignidade não é o objetivo aqui.
A direção descobre o que o filme é
McQuoid abandona a apresentação preguiçosa de personagens em série e amarra todo mundo no torneio de Outworld. As lutas, coreografadas pela equipe de Hiroyuki Sanada e por uma segunda unidade que claramente passou anos estudando cinema de ação asiático, têm peso, geografia clara e violência criativa. A foto troca o filtro azul-acinzentado do primeiro pelo laranja-sangue de Outworld, e isso por si só faz a sequência parecer um filme diferente. Há um plano-sequência num pátio de areia ensanguentada que dura quase dois minutos e é a melhor coisa que a franquia já entregou em live-action.
Karl Urban segura o filme. Johnny Cage é um papel armadilha (fácil de cair na piada, fácil de virar paródia), e Urban encontra o tom certo: idiota o bastante para ser engraçado, competente o bastante para a luta importar. Adeline Rudolph como Kitana e Tati Gabrielle como Jade entram com presença e um arco mínimo mas funcional. Hiroyuki Sanada e Joe Taslim continuam sendo a melhor coisa em qualquer cena que dividem, e o reencontro Scorpion-Sub-Zero é tudo que o primeiro filme prometia e não entregava. Damon Herriman, agora como Shao Kahn, faz um vilão teatral que sabe que está num filme de Mortal Kombat e não tenta convencer o público do contrário.
A trilha continua com a abertura clássica usada com mais responsabilidade: entra duas vezes no filme inteiro, e nas duas vale. É a diferença entre fan service consciente e fan service desesperado.
Onde tropeça
O problema continua sendo o mesmo: tem personagem demais. Mortal Kombat II carrega um elenco grande do primeiro filme e adiciona meio time novo, e o resultado é que metade dos lutadores aparece, ganha uma piada, perde uma luta e sai do filme. Quem nunca jogou o videogame vai passar metade do tempo perguntando quem é fulano, por que ele tem dois braços de metal e por que isso devia importar. Em alguns momentos, o filme parece um Wikipedia executado em alta velocidade.
E o roteiro ainda acha que precisa explicar mitologia o tempo todo. Há um trecho no segundo ato em que três personagens diferentes param para contar passado de outros três personagens, e o filme vira aula. Quando ele volta a brigar, tudo melhora.
Comparativo: vs Mortal Kombat (2021)
O primeiro era um filme tímido fingindo ser ousado. Esse é um filme ousado fingindo que sempre foi assim. A direção é mais segura, a violência é mais coreografada e mais cara, o humor existe (no original ele só dava sinal de vida com Kano). A trama continua sendo bobagem, mas agora é bobagem confiante. Mais importante: as lutas finalmente parecem arquitetadas, não improvisadas. É a sequência que faz o original parecer ensaio. Karl Urban resolve o problema de carisma que o primeiro tinha: ali, ninguém era o protagonista de verdade. Aqui, Cage é, e o filme respira.
Vale a pena pra quem
Pra quem joga Mortal Kombat há vinte anos e quer ver fatalities decentes na tela grande. Pra quem topa um filme de pura ação com humor pastelão. Pra quem ama Karl Urban (que aliás devia ter feito Cage desde sempre). Não é pra quem está chegando agora à franquia: vai se perder em três cenas. Vai com expectativa de churrasco, não de banquete; e vai voltar feliz.
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