A Mostra de Cinema da Amazônia desce do Norte e atravessa a Avenida Beira-Mar pela primeira vez. Entre 19 e 22 de maio, a Cinemateca do MAM, no Rio de Janeiro, recebe 20 filmes (entre longas, curtas, animações e documentários), todos com sessões gratuitas e debates pós-exibição com diretores, produtores e ambientalistas. É um festival pequeno em escala, mas decisivo em pauta: chega ao Rio em pleno acirramento da discussão climática brasileira, semanas antes da COP30, em Belém.
Programação que mistura ribeirinho, indígena e urbano
A curadoria foge do clichê do "documentário de paisagem" e busca olhares feitos de dentro. Minha Terra Estrangeira, de João Moreira Salles, acompanha a ativista Txai Suruí (voz internacional na defesa dos povos originários) e abre a discussão sobre representação indígena em produções brasileiras de longa-metragem. Outros nomes circulam pela seleção em distintos formatos: documentários etnográficos rodados em comunidades ribeirinhas do Pará, animações curtas com técnica artesanal e ficções urbanas ambientadas em Manaus e Macapá.
A programação extrapola o MAM. Cineclubes do Museu Histórico Nacional e o espaço cultural Casas Casadas, na Glória, recebem sessões paralelas durante os quatro dias. Em Niterói, há atividades complementares: uma escolha curatorial óbvia mas importante. O Rio cinematográfico não cabe mais só na Cinelândia.
Painel "Jornada e Resistência" e o peso de Juma Xipaia
O ponto alto programático fica para 21 de maio, com o painel "Jornada e Resistência". A líder indígena Juma Xipaia, da aldeia Tukumã, no Pará, participa virtualmente para falar do exílio na Suíça, das ameaças que enfrenta como ativista e do que significa filmar a Amazônia hoje. É o tipo de presença que justifica o deslocamento: pouco se discute, no circuito carioca, o atravessamento entre cinema e ativismo indígena no Brasil contemporâneo. A Mostra abre espaço para isso de forma direta.
A produção é assinada pela Mekaron Filmes e pelo Instituto Cultural Amazônia Brasil, com apoio do MAM. Sem patrocínio de streaming, sem catálogo curatorial massificado, o festival entrega a primeira edição carioca como gesto editorial: não é exibição turística, é convite a entender que cinema feito na e sobre a Amazônia ainda é território pouco mapeado pelo público da Zona Sul.
O que está em jogo além do cinema
A chegada da mostra ao Rio acontece num momento em que a indústria audiovisual brasileira tenta consolidar políticas de fomento à produção regional fora do eixo Rio-São Paulo. Editais da ANCINE e da BB Cultural têm direcionado mais recursos a produtoras do Norte e Nordeste, mas a circulação ainda concentra-se nos grandes centros. Festivais como este funcionam como ponte: filmes que rodam em Belém, Manaus ou Rio Branco encontram público que normalmente só acessaria via plataformas pagas (quando acessa).
A programação completa está no site oficial do MAM. As sessões são por ordem de chegada, sem retirada antecipada de ingresso, e a expectativa da produção é de salas cheias para os documentários de maior nome, sobretudo o de Moreira Salles.
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