Paper Tiger, o novo drama criminal de James Gray, estreia na competição oficial do Festival de Cannes neste sábado (16) com a brasileira RT Features no time de produção. O filme reúne Adam Driver, Scarlett Johansson e Miles Teller, e tem direito a brigar pela Palma de Ouro entre os 22 filmes do páreo.
A produção brasileira por trás
A RT Features, fundada por Rodrigo Teixeira em São Paulo, virou nos últimos anos uma das produtoras mais ativas no circuito autoral mundial. Já entrou na produção de Me Chame Pelo Seu Nome (Luca Guadagnino), Frances Ha (Noah Baumbach), White Noise (de novo Baumbach), Memoria (Apichatpong Weerasethakul) e do retorno de Pedro Almodóvar ao inglês com The Room Next Door. Em Cannes 2026, a RT figura no escudo de produção principal de Paper Tiger ao lado da Keep Your Head Productions (do próprio Gray) e da Plan B (Brad Pitt).
Para o cinema brasileiro, o caminho da RT é diferente do dos cineastas que vão direto pela Quinzena ou Semana da Crítica com longas falados em português. A produtora opera com capital global e seleciona projetos por mérito autoral, virando ponte entre o Brasil e a primeira divisão de festivais.
O filme que reúne Johansson e Driver pós-Marriage Story
A premissa pega irmãos enrolados num esquema bom demais pra ser verdade no submundo da máfia russa em Nova York. Família vai rachando, lealdades se torcem, escolhas viram cicatrizes. Gray volta ao território que ele domina desde Os Donos da Noite e O Sonho de Cassandra: crime familiar, claustrofobia moral, choque entre origem e ambição.
O elenco é onde a coisa fica interessante. Johansson e Driver dividiram a tela em História de um Casamento (2019), e ambos pegaram indicação ao Oscar por aquele filme. Sete anos depois, voltam a contracenar pra um diretor diferente, com o peso de uma reunião que o público acompanhou pela primeira vez em divórcio de duas horas e meia. Teller completa o trio principal: depois de Whiplash e Top Gun: Maverick, ele entra num projeto que pode mexer outra vez com a percepção da carreira.
O que está em jogo
A Neon comprou os direitos pra América do Norte por valor não divulgado. Com Paper Tiger, a distribuidora chega a seis filmes na competição principal, incluindo The Unknown de Arthur Harari, Fjord de Cristian Mungiu, All of a Sudden de Ryusuke Hamaguchi, Sheep in the Box de Hirokazu Kore-eda e Hope de Na Hong-jin. É uma aposta concentrada, no estilo da Neon há anos.
Gray nunca venceu a Palma. Já levou prêmios em Cannes (Os Donos da Noite concorreu em 2007), mas ficou sempre um degrau abaixo dos grandes. O sistema de votação do júri presidido por Park Chan-wook tem fama de premiar autor radical. Pesa contra ou a favor de Gray dependendo do humor da mesa.
A presença brasileira no resto do festival
Fora Paper Tiger, o Brasil aparece distribuído em mostras paralelas. A Semana da Crítica selecionou Seis Meses no Prédio Rosa e Azul, coprodução Brasil-México-Dinamarca dirigida por Bruno Santamaría Razo com participação da pernambucana Desvia. La Perra, da chilena Dominga Sotomayor, traz Selton Mello no elenco e desfila na Quinzena dos Realizadores. Elefantes na Névoa, de Abinash Bikram Shah, é coprodução brasileira e vai pra Un Certain Regard.
Nenhum longa-metragem 100% brasileiro entrou na competição principal este ano, mas o país aparece em cinco filmes através de coproduções, o tipo de presença que aposta no cinema autoral via capital e participação técnica, não via bandeira na fachada. Paper Tiger estreia em sessão de gala às 19h horário local neste sábado, com tapete vermelho do trio principal.
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