Peter Jackson chegou a Cannes pra receber a Palma de Ouro Honorária e usou o intervalo entre coquetel e photocall pra adiantar duas coisas que fãs vinham tentando arrancar dele há tempos. Uma: ele está, sim, escrevendo o segundo As Aventuras de Tintim com Fran Walsh, agora mesmo, com o roteiro avançando enquanto ele dá entrevistas no Croisette. Duas: explicou em detalhes por que entregou O Senhor dos Anéis: A Caçada por Gollum (título ainda sem tradução oficial para o Brasil) nas mãos de Andy Serkis.
O Tintim que ficou pendurado 15 anos
A história começa em 2011, quando As Aventuras de Tintim: O Segredo do Licorne saiu nos cinemas dirigido por Steven Spielberg. Na época o combinado era simples e meio brincalhão: "O Steven dirige um, eu dirijo o outro", como Jackson repetiu agora em Cannes. Spielberg cumpriu sua parte, virou o século, e Jackson ficou enrolado entre projetos.
Quinze anos depois, o cineasta confirma o óbvio: o filme nunca saiu do radar. "Estou escrevendo agora, com Fran. Trouxe o material pra Cannes". Sem cast, sem data, sem distribuidora confirmada, mas com roteiro andando. Para fãs do Tintim de Hergé que esperaram tanto, qualquer notícia já é caminho.
Por que Gollum não é de Jackson
A escolha mais delicada do anúncio veio em outra ponta. A Caçada por Gollum, primeiro filme da nova fase do universo Senhor dos Anéis, marcado pra 17 de dezembro de 2027, não será dirigido por Peter Jackson, e sim por Andy Serkis. A Warner anunciou isso em 2024, mas só agora Jackson deu a explicação completa.
"Andy conhece esse cara melhor do que ninguém", disse o cineasta. "A versão mais interessante desse filme é a que o Andy Serkis faz". Jackson assina a produção ao lado de Walsh e Philippa Boyens, mas a direção segue com Serkis, o ator que deu vida e voz a Gollum em quatro filmes da saga e que, segundo Jackson, é dono do personagem num nível que ninguém replica.
A história mira o período em que Aragorn rastreia Gollum pela Terra-média antes dos eventos de A Sociedade do Anel, com foco no vício e na espiral psicológica da criatura. É território denso, mais perto de drama psicológico do que de fantasia épica.
O recado contra a IA
Jackson aproveitou a passagem por Cannes pra mandar um recado farpado sobre a indústria. "Eu não tenho nada contra a inteligência artificial", começou diplomático, antes de afilar a faca. "Mas não acho que um personagem como Gollum, ou qualquer personagem gerado, deveria concorrer a prêmio nenhum. É um pouco injusto, principalmente no caso do Andy, porque o trabalho dele não é IA. É uma performance humana 100% do começo ao fim".
A fala mira diretamente a discussão sobre captura de movimento. Serkis nunca foi indicado ao Oscar mesmo em performances aclamadas como Gollum, César de Planeta dos Macacos ou Klaue de Pantera Negra. E ao mesmo tempo joga a pedra no debate atual sobre filmes que usariam ferramentas generativas. Jackson saiu pela tangente, mas a pressão estava lá.
Mais o que vem por aí
Jackson também adiantou que segue envolvido em outros projetos sem cravar datas: o documentário sobre os Beatles continua sendo retrabalhado em material de arquivo, e há "umas duas coisas mais" que ele preferiu não nomear. O cineasta acumula nas mãos o universo da Terra-média, a saga Tintim e o legado dos Fab Four ao mesmo tempo, sem nunca parecer apressado.
A presença em Cannes consolida o que já estava no ar: depois da Palma Honorária e do peso emocional da homenagem, Jackson voltou ao circuito com fôlego renovado.
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