Em estreia internacional no Doclisboa 2026, Dragões faz uma pergunta que parece simples: quem criou Jair Bolsonaro? O documentário de Miguel Antunes Ramos responde com o material do próprio ex-presidente, os milhares de vídeos do seu canal no YouTube. E chega às vésperas do segundo turno das eleições brasileiras, quando imagem, propaganda e poder estão de novo no centro da conversa.
Dragões é um documentário inteligente e incômodo na medida certa. Em vez de discutir o que Bolsonaro dizia, ele olha para como Bolsonaro escolhia aparecer. E é aí que encontra algo que vale para qualquer político da era das redes.
A câmera tremida também é estética
Narrado pelo diretor, o filme mergulha em vídeos pixelados, enquadramentos improvisados e gravações caseiras. A precariedade não é defeito: é a força daquela comunicação. Quanto menos produzida parece a imagem, maior a sensação de proximidade com quem assiste.
Mas existe uma diferença entre espontaneidade e a aparência de espontaneidade. Com canais próprios, Bolsonaro falava direto com seus seguidores, escolhia o que mostrar e dispensava a mediação jornalística. Ele não era apenas o protagonista dos vídeos. Era o diretor da própria imagem.
Repetida à exaustão, a figura do homem comum, sentado à mesa e falando para o celular, deixa de parecer estratégia e passa a parecer traço de personalidade. O controle da narrativa não exige grande produção. Às vezes, basta controlar a câmera.
Da tela de Pedro Américo ao celular
O filme abre com Independência ou Morte, de Pedro Américo, pintada em 1888, mais de seis décadas depois do grito do Ipiranga. Uma interpretação artística posterior que virou, para gerações, a própria imagem da Independência. O título vem dos Dragões da Independência, a guarda de honra presidencial, e a analogia funciona: a imagem não só conta a história, ela define como nos lembramos dela.
Ramos também contrapõe essa iconografia ao espetáculo monumental da propaganda do século 20, como O Triunfo da Vontade (1935), de Leni Riefenstahl, sem equiparar contextos. Antes, o líder aparecia acima da multidão. Hoje, fala direto para um celular. A monumentalidade deu lugar à intimidade, mas a construção da imagem continua.
O desconforto está na plateia
Uma das experiências mais marcantes de Dragões aconteceu fora da tela. Na sessão em Lisboa, a plateia reagia a algumas aparições de Bolsonaro e de quem estava ao seu redor com risos nervosos, mais próximos da incredulidade do que da diversão. Como se a sala inteira se perguntasse: como chegamos até aqui?
Muitas dessas imagens já circularam amplamente pela internet. Reorganizadas pelo cinema, ganham outro peso. E há uma ironia interessante nisso: durante anos, Bolsonaro conduziu a própria narrativa audiovisual. Agora, quem controlava a câmera passa a ser observado por ela.
Quem deve ver
Se você se interessa por comunicação, política ou pelo jeito como as redes mudaram o que entendemos por autenticidade, Dragões vale cada minuto. O filme não pede que você concorde com nenhum lado. Pede que você se pergunte quanto de cada político que acredita conhecer é realidade, e quanto foi criado pelas imagens que você escolheu consumir.
Em Lisboa, a última sessão é nesta quarta, 21 de outubro, às 11h, no Pequeno Auditório da Culturgest (ingressos e ficha no site do Doclisboa). No Brasil, o filme teve estreia nacional na Première Brasil do Festival do Rio.
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Dragões (Brasil, 2026) · Documentário · 84 min · Direção: Miguel Antunes Ramos · Doclisboa 2026, seção Da Terra à Lua, em competição pelo Prémio Direitos e Liberdades
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